Transporteur Officiel des Rencontres de Bamako

Apresentaçã em português

Fluxos de consciência

Uma concatenação de dividuais

Honestamente, Irmãs,
Há aqui uma certa alegria
… e também uma amargura.
Mas se quiserem saber
o quão igual é
até
a ½ do grupo mais igual,
venham ver-nos em qualquer biblioteca pública
- depois de um dia normal de trabalho das 9 às 5.
Ama Ata Aidoo, Comparisons II – We Women, Still !
Olha por onde andas, estrangeiro ímpio
Esta é a terra das oito harmonias
No arco-íris : preto.
É o lado escuro da lua
Revelado à luz
É a tela da pincelada de Deus
Tsegaye Gabre-Medhin, Home-Coming Son

Ao longo dos eletrizantes 21:01 minutos do tema de abertura de Abdullah Ibrahim e Max Roach no álbum epónimo Stream of Consciousness (1977), ficamos fascinados e cativados pela intensidade pura, o encantamento e a alquimia entregue em formato sonoro ao ouvinte. O que no primeiro minuto começa pelo solo de piano quase litúrgico de Abdullah Ibrahim, logo seguido de uma característica solo matemática melódica de Max Roach antes do encontro dos dois músicos para o restante do tema depois de 2h45, está longe de ser um simples cara-a-cara. Seria mais algo que se aproximasse de uma conversa de alma a alma. Uma conversa que nomearíamos assim por nos lembra o que William James, no seu livro Os Princípios da Psicologia (1890), chamou de fluxo de consciência ; ou seja, a corrente contínua de pensamento de uma pessoa, e as suas reacções conscientes aos acontecimentos. Vários fluxos convergem neste mesmo tema, e poderíamos reflectir longamente sobre alguns deles – o fluxo de consciência entre os artistas, o que se revela aos ouvintes, e o que toma corpo entre dois africanos que poderiam representar o fluxo de energia entre a terra-mãe e a Diaspora.

De qualquer modo, o que nos interessa aqui é a noção da representação do ponto de vista de um ou de uma artista, através de um raciocínio de expressão artística. Olhamos qui para a obra de arte como a expressão de um monólogo interno ou como o conjunto de reações sensoriais a acontecimentos externos, da parte do ou da artista. Logo, se podemos apelidar a técnica literária de escrita que chamamos fluxo de consciência, de “pensamento em palavras”, como poderíamos então imaginar a pratica artística de fluxo de consciência fotográfico na lógica de um “pensamento em imagens” ?
A partir do momento em que algo chama a atenção do fotógrafo, as várias associações que se criam conceitualmente e esteticamente, assim como as várias referências de invocação e de convocação, levam à tiragem da foto. Pensar é um processo tanto activo como passivo, e o que importa a seguir a isso é a forma como o que é visto, ouvido, cheirado, sentido, provado ou interpretado de outra forma, activa e leva o olho interno a ver ou a voz interior a pronunciar-se, estabelecendo assim um fluxo de consciência em movimento.

Assim sendo, a fotografia poderia tornar-se numa forma de captar esses fluxos de consciência ? Ou seja, uma fotografia poderia informar-nos sobre um estado de espírito, o que despertou os sentidos e levou à sua realização ? Uma foto única seria capaz de nos informar sobre os processos de desenvolvimento conceituais e práticos que deram lugar àquela imagem única ? E quando o observador olha para a imagem, haverá transmissão do fluxo de consciência que originou da parte do ou da artista ?

Inútil dizer que em plena época de hipervisibilidade e de verdadeira inflação da prática fotográfica, nem toda imagem é uma fotografia, e nem toda fotografia faz de quem a tirou, um fotógrafo ou uma fotógrafa. Por isso, nem toda fotografia há-de ser um registo de fluxos de consciência. Podemos de facto dizer que apesar da hiper-disponibilidade de ferramentas fotográficas tais como as câmeras nos nossos telefones, assim como os diferentes meios digitais que usamos para tirar fotos, partilhar e reproduzir imagens ; fomos cada vez mais esquecendo a maneira de olhar. Apesar do nosso sentido de visão ter sido colocado à frente de todas as sensações, paradoxalmente, é impossível não sentir que, de certa forma, este mesmo sentido de visão está-nos a ser amputado ao mesmo tempo. Sobre tudo se olharmos para a forma como a África em particular é retratada em termos fotográficos, principalmente pelos fotógrafos do Ocidente. Essa deficiência da visão ; a falta de profundidade de visão, torna-se mais evidente. Por isso havemos de detectar profundidade de visão no que chamamos um fluxo de consciência fotográfico. Quando falo de profundidade de visão, falo do que Akinbode Akinbiyi explica quando fala sobre ouvir atentamente. Ou seja, quando a visão não se limita ao olho ou à vista, mas é na verdade completada por todos os outros sentidos nas suas respectivas profundidades. Quando é o caso, a câmera torna-se tanto um factor de conexão entre os meios de percepção, como pode também agir como prótese para compensar o olhar deficiente.

Escrevendo sobre a natureza conceitual do trabalho de Lorna Simpson, Teju Cole sugere a noção de Evoking What Can’t be Seen [Evocar o Que Não Pode Ser Visto]. “ Partindo de várias direções, a obra assinala o que não pode ser visto : a organização inicial dos navios que inspiraram os de Simpson, as pessoas nas fotografias de James Van Der Zee, a vida social de Harlem evocada pelos seus fotógrafos e a complexidade das boas maneiras e de classe sugeridas nas fotografias. Todo esse universo desaparecido, tanto de cultura como de experiência, reduz-se a um quadro elegante, tão simples quanto o catálogo de um antiquário, uma visualização mental que requer uma aproximação cautelosa e uma intervenção imaginativa da parte do observador. Sem ser representacional, trata-se de raça ; mas a raça não faz parte de uma categoria por si só, somente rodeada de questões sobre tom de pele, separadas da vida”.
O que nos interessa aqui não é tanto a natureza conceitual da obra fotográfica, ou a possibilidade de um navio abrir mundos que o observador talvez não consiga imaginar. Neste contexto de Evocar o Que Não Pode Ser Visto, gostaríamos de reflectir sobre as limitações ligadas ao acto de ver e de ser visto. Sendo assim, a imagem não é um esconderijo, mas sim o contrário, e se torna criadora de oportunidades. A imagem, que aqui é um registo de fluxos de consciência, tem a capacidade de revelar mundos de reflexão e circunstâncias, o universo de histórias e de geografias que deu lugar à fotografia.

Para a presente Bienal de Fotografia de Bamako, sugiro os seguintes pontos focais :

• A possibilidade de explorar os conceitos psicológicos e literais do Fluxo de Consciência no contexto da prática fotográfica, olhando para artistas cujo trabalho releva os seus pensamentos e reacções conscientes a acontecimentos e percepções num fluxo contínuo.

• Aplicar a noção de Fluxo de Consciência como metáfora para o fluxo de idéias, pessoas, culturas que atravessam e vão fluindo pelo o Rio Níger. O Rio Níger como personificação do Fluxo de Consciência. Sendo este o terceiro maior rio do continente Africano e o maior rio da África Ocidental, cobrindo 4 180 km dos Planaltos da Guiné através do Mali, do Níger e da Nigeria para desaguar no Golfo da Guiné no Oceano Atlântico, o rio Níger constitui uma verdadeira abertura para a agricultura e a cultura no continente Africano. Isso reflete-se também na etimologia do seu nome em diferentes línguas : em mandinga : Joliba “grande rio” ; em Igbo : Orimiri “grandes águas” ; ou em Tuareg : Egerew n-Igerewen : “rio dos rios”.

• No álbum Stream of Consciousness de Max Roach e Abdullah Ibrahim, existe a necessidade de estabelecer pontes através do Atlântico para criar o universo africano. Para esta bienal, eu gostaria de focar sobre o universo africano. Há muito que África deixou de ser um conceito geográfico limitado ao espaço geográfico chamado África. África como conceito planetário refere-se às pessoas de origem Africana, os I & I situados por todo o mundo ; na Ásia, Oceânia, Europa, pelas Américas e pelo continente Africano. Eis como a fotografia pode também revelar o Fluxo de Consciência que flui a partir de e para além das margens do continente Africano.

• Com a 12a edição da Bienal de fotografia de Bamako, essa bienal de fotografia em particular irá festejar 25 anos de existência desde a sua primeira edição em 1994. Assim, esta 12a edição apela a uma retrospectiva da Bienal em si. Nessa exposição, os pontos altos que ocorreram nos últimos 25 anos serão representados e recontextualizados dentro de 2019.

• Cada vez mais, a fotografia tem se tornado um espaço dominado por homens. A câmera tornou-se a extensão ou substituição do falo. A dominação masculina nas exposições de fotografias e em publicações tem pouco que ver com a disponibilidade de mulheres fotógrafas. Trata-se mais um reflexo das estruturas patriarcais ainda presentes no ramo da fotografia. Esta edição terá como foco mulheres fotógrafas de todo o mundo Africano.

• Algumas das contribuições mais importantes da fotografia no mundo Africano vieram-nos de colectivos como Depth of Field ou Invisible Borders, entre tantos outros. A possibilidade de criar comunidades que se completem nas práticas de percepções e de fotografar, a possibilidade de contar as nossas próprias histórias de forma colectiva através da imagem, a possibilidade de debater o facto de que, numa sociedade, não somos indivíduos, mas sim a noção Deleuziana de dividuais... o que significa que somos entidades divisíveis que, juntas, formam um colectivo maior, contrariamente à idéia de indivíduo que quer dizer indivisível, ou a unidade mais ínfima da sociedade. Isso para dizer que entendemos melhor as pessoas através das relações sociais das quais elas fazem parte. Assim sendo, focaremos sobre práticas colectivas.

No dialogo sonoro de Stream of Consciousness de Abdullah Ibrahim e Max Roach, a noção animada de Africanidade e de Negritude serve para enquadrar a conversa, mas também serve de factor vinculativo entre esses dois mundos. A música torna-se a linguagem através da qual os artistas podem comunicar, e mesmo nessa língua, cada um deles traz um sotaque diferente e um método de narração. Trata-se de uma língua por si só que na sua entoação fala de amor, de dor, e de outros aspectos existencialistas. Ouvindo tudo isso, vemos o mundo se desdobrar, se construir e desmoronar através de vários ciclos.

INSTRUÇÃO ÀS POPULAÇÕES DO PLANETA. Deverão entender que têm o direito de amar a beleza. Deverão preparar-se a viver a vida ao máximo. Claro que isso exige imaginação, mas não é preciso ser-se uma pessoa instruída para se ter isso. A imaginação pode ensina-los o verdadeiro sentido do prazer. Ouvir pode ser um dos maiores prazeres. Deverão aprender a ouvir, porque ouvindo, aprenderão a ver com os olhos da mente. Reparem, a música pinta retratos que só os olhos da mente conseguem ver. Abram os vossos ouvidos para poderem ver com os olhos da mente.

Sun Ra, Liner notes to Sun Song, 1957

Bonaventure Soh Bejeng Ndikung
Diretor artístico do 12º encontro de Bamako

Institut Français
Ministère de la Culture de l’Artisanat et du Tourisme du Mali
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